quinta-feira, julho 3

Bendito É O Fruto!

********** "LÍSIA - Ana Paula tomará o alto da escada! Quanto às outras, fiquem por aqui, fazendo uma espécie de cinturão de retaguarda. Quanto a você, Laísla, assim que escurecer vá ao encontro dos dois e livre meu Rhett Buttler da companhia daquela Scarlett O´hara do pão de queijo. E tudo ficará perfeito! Ao procurar pela namorada, meu filhote fatalmente vai passar por aqui e, nesse instante, a Aninha ataca!" **********

Essa comédia em três atos foi inspirada numa pequena história de grande valor. Uma amiga, Sra. Laís Cecília da Silveira - de Pindamonhangaba, me contou que, na época da solteirice, um dos passatempos dela e das amigas, sendo negras, era o de irem para a porta do clube da cidade verem as brancas chegarem para o baile com seus vestidos e namorados, esbanjando elegância e beleza. 'Début' restrito aos brancos já que os negros não podiam participar do baile. Eram os idos da década de 50 e o preconceito, naquela época alardeado em vozes e atos, corria solto.

Daí, escrevi Bendito É O Fruto! Criando e viajando na idéia de pensar em, independente da época, como seria se uma negra tivesse a oportunidade de entrar na festa de uma branca assumidamente racista.

Hoje não temos racismo. Temos? Hoje, o racismo é dissimulado, acobertado sob o manto dos interesses. Interesse em aceitar quem é conveniente (como se faz normalmente em sociedade, independente de etnias); interesse em ser policamente correto, interesse em se parecer sociável. Assim, acoberta-se um dos piores crimes que pode ser cometido contra o ser humano.

Lísia, a protagonista da minha peça, grita e expõe toda a sua crueza, toda a sua verve que se expressa textualmente na forma de um preconceito nojento e podre.

E, com isso, pretendo eu com essa comédia, além de fazer as pessoas rirem, fazê-las também pensar o quanto pode-se estar cheirando mal por dentro, no caráter e nos conceitos, mesmo que não se demonstre por meras conveniências sociais.

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